A surpreendente história da "Menina Galinha" de Portugual

Maria Isabel cresceu em um galinheiro e teve uma infância complicada que acabou moldando toda a sua vida.

A surpreendente história da
Escrito por: Ms Redação 30 de agosto de 2018 16h09 Comentários

Em 1980, Portugal ficou chocado com a história de Maria Isabel Quaresma Dos Santos, uma menina de 9 anos que passou toda a sua infância em um galinheiro, privada de qualquer interação e afeto humano. Por causa dos efeitos que crescer com as galinhas trouxe ao seu comportamento, Isabel ficou conhecida como “Menina Galinha”.

Imagem ilustrativa - Wikicommons

 

De acordo com um artigo publicado pelo jornal Diário de Notícias em 1980, Maria Isabel Quaresma Dos Santos nasceu em 6 de Julho de 1970, em uma fazenda em Tábua, no distrito de Coimbra, Portugal. Quando ela tinha apenas um ano de idade, sua mãe, que os médicos mais tarde diagnosticariam com problemas mentais graves, a trancou no galinheiro, porque ela não a considerava parte da família.

Maria Isabel passaria os próximos 8 anos de sua vida neste lugar, cercada apenas por galinhas e sobrevivendo da mesma comida que os pássaros: grãos, folhas de repolho e quaisquer sobras que a família pudesse alimentá-los.

Curiosamente, os irmãos mais velhos de Maria Isabel não tiveram o mesmo destino da pobre garota. Eles viviam vidas normais, dormiam na casa da família, frequentavam a escola e interagiam com outras crianças da comunidade local. Mais tarde foi revelado que todos em Tábua sabiam sobre a menina que crescia no galinheiro da família Santos, mas ninguém nunca denunciou a família às autoridades ou tentou ajudá-la de qualquer maneira.

Tábua era uma pequena comunidade rural naqueles tempos, e as pessoas se concentravam em trabalhar nos campos em vez de se meterem nos assuntos de seus vizinhos.

Embora a história da "Menina Galinha" - como os jornais se referiam a Isabel na época - só estourou em janeiro de 1980, a menina teve a oportunidade de escapar de sua prisão desumana quatro anos antes.

Em 1976, uma de suas tias apresentou queixa contra seus pais e tentou fazer com que ela fosse examinada por médicos. Ela foi diagnosticada com uma deficiência grave pelos médicos de Coimbra, que acrescentaram que ela precisava ser hospitalizada para reabilitação.

No entanto, não havia instituições que aceitassem a internação, então depois de ser rejeitada por vários hospitais e institutos mentais, a tia não teve escolha senão levá-la de volta para sua família.

Só em 1980, quando Maria Bichão, técnica de radiologia do Hospital Torres Vedras, expôs o caso da menina à mídia e as coisas realmente começaram a ir na direção certa. Bichão teve conhecimento da situação de Maria Isabel por outras enfermeiras do hospital e queria ajudar. Ela levou a menina para a sua casa e ficou com ela por 15 dias.

Mas logo ela percebeu que precisava de ajuda profissional, então contatou jornalistas da capital portuguesa sobre as condições em que a menina vivia e os efeitos que isso teve em seu estado físico e mental, esperando aumentar a conscientização sobre o caso.

“É difícil imaginar que alguém possa sobreviver nas condições em que essa criança vive há anos. Mas ainda mais chocante é que o caso dela havia sido denunciado há quatro anos sem que nenhuma instituição tomasse as medidas necessárias para resolvê-lo ”, escreveu Maria Catarina, jornalista de Lisboa.

Manuela Eanes, a primeira-dama de Portugal na época, desempenhou um papel importante nessa história, arranjando para que Isabel fosse levada para um centro de reabilitação em Lisboa. Os médicos ficaram chocados com o comportamento animal e a grave deficiência mental.

“Pelo que observei até agora, posso dizer que se trata de uma criança que sofre de uma insuficiência intelectual causada, provavelmente, pelo abandono afetivo e social. O comportamento de Isabel é a nível biológico elementar, ou seja, reações primárias de um animal ou ser humano ”, afirmou João dos Santos, diretor do Centro de Higiene Mental da Criança em Lisboa, ao jornal O Jornal, em fevereiro de 1980.

O jornal português Expresso relatou que apesar de estar “profundamente triste” e com medo, Maria Isabel não conseguia nem chorar, porque “chorar é a primeira forma de comunicação entre os seres humanos” e ela quase não teve contato com humanos durante a maior parte de sua infância.

Ainda mais chocantes foram os relatos sobre a maneira como Maria Isabel imitava o comportamento das galinhas. Ela tava pequenos passos e constantemente movia os braços, como se fossem asas. Ela não falava e só emitia cacarejos para se expressar. Por ter sido alimentada apenas com comida de galinha, a menina apresentava graves problemas de crescimento, e apesar de ter dez anos de idade, seu cérebro havia estagnado ao nível de uma criança de dois anos.

Mesmo uma década depois, Maria Isabel Quaresma Dos Santos ainda exibia gestos e comportamentos característicos do lugar onde cresceu. Ela ainda se movia com pequenos passos rápidos. Bater os braços permaneceu como uma das principais maneiras de se expressar. Aos 27 anos, ela foi capaz de se mover sozinha em superfícies planas e se tornou menos agressiva.

“Apesar de não falar, ela é muito inteligente, independente e se adaptou muito bem ao seu ambiente. Ela sabe como mostrar o que quer e o que não quer ”, disse Cristina Conceição, psicóloga que trabalha com Maria Isabel, para o jornal Expresso, em 2002.

Maria Isabel Quaresma Dos Santos vive numa clínica em Fátima há 16 anos e, sem revelar muitos detalhes, para preservar a dignidade do paciente, o jornal Expresso informa que ela está “bem”.

Isabel recentemente completou 48 anos de idade.

A história da Menina Galinha de Portugal foi recontada por quase quatro décadas, mas no início deste ano, uma investigação do Expresso revelou que os jornais da década de 1980 podem ter exagerado suas reportagens. Era verdade que Maria Isabel vivia em um galinheiro, mas apenas porque sua mãe, que sofrera danos cerebrais devido à meningite, a deixava lá enquanto trabalhava no campo. No entanto, os vizinhos dizem que não havia galinhas, pois a família era muito pobre.

Os jeitos de galinha de Isabel aparentemente foi foram inventados pelos jornais para vender mais cópias. Ela realmente sofria de graves deficiências mentais devido à falta de contato humano e afeição, mas seu comportamento aparentemente não tinha nada a ver com os pássaros, era apenas como ela se expressava.

Cuidadores das instituições em que Isabel vive há 22 anos sempre foram muito protetores, recusando-se a permitir que alguém a fotografasse e até negando pedidos de cientistas portugueses e estrangeiros que desejavam estudá-la. Ela aparentemente tem o nível cognitivo de uma criança de 4 anos de idade.

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